Uma saudade de alguém que ainda está aqui

 


Seu sorriso, sua vontade de ter sempre pessoas ao seu redor, sua preocupação em estar bem vestida e arrumada, cabelos pintados, unhas cor de rosa, um batom discreto e lápis para desenhar a sobrancelha. Saias plissadas com bolsa de couro e um sapato que combina com a bolsa. Perfumes da Natura, sempre o mesmo. Creme antirrugas, os caros. Cremes do Boticário. Pernas longas e olhos azuis cor do céu brilhantes.

Cantava enquanto lavava roupa, cantava enquanto preparava comida. Suas especialidades eram carne assada de panela, cuca de banana ou de abacaxi e geleia de jabuticaba. Não se importava com as horas mexendo a panela.

Ninguém jamais ficou sem um cafezinho quando a visitou.

Gostava muito dos rituais festivos. Todo Natal a família se reunia para o tradicional docinho de Natal decorado. Desde às 5h da manhã preparando a massa e isso iria quase o dia todo: fazendo os doces, assando e pintando. Tirava a mesa da cozinha e preparava o ambiente para o ritual de Natal.

Sempre tinha uma opinião sobre o meu cabelo e os quilos: era curto demais ou comprido demais, muito gorda ou muito magra. Preocupou-se demais com o que os outros pensavam, com opiniões de pessoas que não se importavam tanto quanto pareciam. Não gostava de contrariar.

O que queria era ter pessoas para uma boa conversa. Creio que ela nunca entendeu como eu poderia adorar a minha caixa do “nada”, estar em casa e fazer coisas sem tantas pessoas ao redor. Mas em algum momento eu rompi esta expectativa e me aceitei como sou e isso é tão libertador.

Incontáveis vezes a vi ajudando pessoas, ouvindo histórias tristes, resolvendo problemas da família, orando alto pela vida de todos os amigos, irmãos, sobrinhos e até completos desconhecidos. Sempre se doando.

A felicidade aumentava em dias de festa quando era possível enrolar os cabelos, fazer maquiagem e se vestir combinando tudo.

A criadora dos apelidos fofos.

Um dia...

Seu olhar mudou, ficou distante.

Seu comportamento mudou, sua mobilidade foi se restringindo a cada dia.

É difícil fazer as coisas mais simples como andar, comer. Esquece como falar, esquece o que dizer.  Mas não esquece quem somos.

Parece que vai ficando presa dentro de si a cada dia mais.

É isso que a demência frontotemporal faz. E é assim que vamos convivendo com um cenário que nos faz sentir falta de uma pessoa que não existe mais, que não vai voltar, que vai sumindo aos poucos bem embaixo de nossos olhos.

O que será que pode ser tão perturbador quanto uma mente doente?


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