Ao amor
Hoje eu entendo melhor esta nossa relação desigual. Que não seja isto um desejo de expressar com utopia a arte de viver. Que viver é uma arte. Um cristal. Um vidro que pode ser lapidado por mão hábil e apresentar aquela transparência translúcida, de forma que a beleza está naquela fragilidade que o vidro contém. Uma fragilidade que fortalece, que engrandece a peça. Ninguém dá valor ao vidro tosco. O refinamento só aparece quando alguém lapida a obra da vida. É assim. A vida começa assim. Como um bebê que toscamente surge e aprende, é sensível ao lapidador. Retém partículas de sabedoria no corpúsculo inocente. Continua, porém, inacabado. Esta é uma lapidação sem fim. Os seres são inacabados, andam de um lado para o outro. Procuram. Procuram. O Universo parece pequeno. Um dia, dois seres, por algum motivo encontram-se, a lapidação de um parece encaixar-se no outro. Os cristais cantam aquele som agudo que acontece quando se molha o dedo na língua e em movimentos circulares e suaves des...