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Melodia

Eu sinto dentro de mim a música que clama por um sentimento de êxtase, aquele que invade a alma. De dentro para fora é que vem este sentimento. Cada órgão se encontra em harmonia e quer simplesmente compor uma sinfonia inteira, em notas musicais que se unem em completa sintonia e a sucessão de sons agradáveis não sai da minha boca e nem mesmo meus ouvidos ouvem. Meu corpo ouve, sente o som afável da calma que me invade. Eu mesmo posso compor a partitura e em qualquer clave eu tenho certeza de que resultará no mais agradável som da vida. Eu sinto o estado da alma que se desprende das coisas materiais e contemplo o meu próprio interior e cada vez mais quero me envolver comigo mesma e prestar atenção aos detalhes de um sentimento que me domina e noto que há sinceridade nele. Eu não posso enganar-me. Não posso errar a nota e deixar a música sem sonoridade. Eu não posso falar. Somente ouço a voz interior que clama por um momento único. Nada se pode fazer, dizer. Nada explica tudo. Na...

Eu gosto de poucas coisas...

Eu gosto de poucas coisas, mas isto não me torna menos importante no mundo. Por que eu deveria gostar de tudo e de todos? Nem tudo me atrai, poucos me surpreendem, raro é aquele que me fascina. O fascínio e a decepção caminham de mãos dadas, elevam o corpo e a alma e murcham subitamente. Caminhar na praia, eu gosto; ver o mar e o sol, este sim me fascina. O sol é o fogo que me queima por dentro e aquece os membros, é a estrela que guia de algum modo a vida, um farol através do qual os seres, de longe, se mantêm na rota. Até uma folhinha é capaz de percorrer caminhos tortuosos na procura da luz solar. A massa macia recheada com creme de chocolate, suspiro e morangos e coberta com calda de chocolate que escorre até a borda do prato formando um pequeno rio, isto... eu também gosto. O doce mistura-se ao azedo e causa aquela salivação nas laterais da parte interna da boca enquanto o sabor é apreciado. Sabores são como os seres humanos, os opostos acabam juntos e, juntos, formam algo q...

Lembrar de Esquecer

Esqueceu-se de si mesmo. Os autores que eu tenho aprendido a apreciar gostam tanto de esquecerem-se de si mesmos que acabei por pensar o que aconteceria com os textos se em vez de se esquecerem, tivessem lembrado de si mesmos. Como podem escrever sobre nada, sobre não estarem aonde estão, não amar, não ter, não ser. Como podem dar vida ao inerte e prender a atenção em linhas e linhas sem propósito que se unem em perfeição semântica e transformam as letras em melodia harmoniosa? Quem sabe. A tristeza é tão mais interessante e rende tanto. Rende bons textos, flui como uma caudalosa cachoeira e transforma a morfologia em poema. O sangue vivo que possui um cheiro particular escorre entre os dedos do escritor e desliza através dos sulcos da pele até as unhas e mesmo embaixo da queratina, aonde já se coagula, goteja nas teclas da história. A tela é bicolor: preto e branco. Os cabelos tão curtos não requerem cuidados, a pele branca contrasta com os grandes olhos negros, tão negros que sã...

Amor de Mãe

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Ela chegou para sempre... ainda não consegui encontrar palavras para definir o sentimento que nos une. Nenhum autor conseguiu dimensionar, em palavras, o amor de mãe. que se doa; incondicionalmente sem cobranças. Talvez eu possa, algum dia, delinear letras que definam o sentimento de uma mãe.

O prato de comida

Os limites determinam o lugar, o momento, a ação e a reação que convencionalmente se deve ter. Restringir, não ultrapassar a linha de demarcação é o princípio para não se meter em confusões desnecessárias. Falo de um homem, especificamente. Não que merecesse um texto, pois me parece apenas mais um entre tantos, popular, tão popular que fico até indecisa se há conjunto de palavras suficiente para que se forme uma história. A bicicleta velha era o meio de transporte utilizado, o automatismo psíquico quase surreal, o corpo sujo de pedinte e um cheiro nauseabundo insuportável causavam repulsa. Talvez o ser esquisito vivesse mesmo como morador sem casa, em qualquer parte, comendo quando outro ser, da mesma espécie, que se achava melhor, bem limpo e perfumado, quiçá um doutor impecavelmente branco, quase pálido oferecia um prato de comida. E o moribundo sentia-se saciado por algumas horas. E o doutor, sentia-se tão bom, tão bom que pelo resto do ano contava suas benevolências e a capacidad...

Residência.

O dia termina com acasos, que não são acasos. A rotina não é acaso, é escolha. Escolhe-se bem ou mal, porém delinear o momento ou vários momentos é tarefa indiscutivelmente árdua. Você está no lugar, olha o cenário, não se agrada. O corpo permanece imóvel, por quê? A física estuda o corpo em movimento, deseja que se movimente, que cause intriga molecular. A imobilidade alcança os melhores atletas. O alvo fica tão obscuro e inoportuno, a facilidade alcança a inação. Que motivo sinistro, talvez sóbrio, talvez embebido em qualquer substância que tire a venda da timidez causaria tanto desconforto? Parco instante. Vive aqui olhando a natureza, vivendo a natureza, protegendo árvores, plantas e águas como se pudesse salvar o mundo daquilo que já está previsto que aconteça. Usa dois lados do papel, dá meia descarga e condena veementemente o desperdício. Recicla papel, alumínio, orgânicos. Recicla momentos.  A neurose o atinge, digo o atinge porque a tão imponente língua portuguesa dá-me ...
Palavras Só porque senti uma vontade inexplicável de escrever algo, cá estou. Não sei sobre o que exatamente, os temas são tantos, porém não me atraem. Um escritor tem realmente que optar por algum tema específico? Não pode simplesmente discorrer palavras que se unem graciosamente por orações coordenadas e subordinadas e conjugações perfeitas? Apesar da imperfeição sintática atrair muitos. O conjunto de palavras escritas é um vocativo àquele que aprendeu apreciar esta arte que se movimenta na apatia do vocábulo que, letra por letra, transforma a realidade imaginada, abstrata, ilusória em verdadeira. As palavras formam melodias e como símbolos altissonantes em harmoniosa expressão de sons que se articulam com o ar roçando ruidosamente as paredes da boca estreitada ou é forçado a sair pelas fendas laterais quando a língua se apoia no palato e no conjunto de dentes, língua e paredes côncavas executam o ruído da letra inerte. O som parece mais belo e agradável, porém perde-se no tempo e ...