quarta-feira, 25 de maio de 2011

- Tenho vários medos.


Enquanto os dedos trêmulos apoiam-se sobre a borda arredondada da cadeira, o vento suave separa os fios brancos, acetinados, em pequenos filamentos que se desprendem aqui e ali. A expressão profunda de um olhar que se perde no horizonte, vago, delineia os contornos da vida. Não é aquela inquietação disfarçada que causa sofrimento, nem a respiração ofegante que dissimula o perigo, são muitas histórias!

O frescor da manhã é o ânimo do dia que se aconchega entre os braços do sol.

Um dia, daqueles normais, sem grandes expectativas, quando os olhos entreabertos resistem ardentemente à claridade que se infiltra e toma conta de tudo em volta, amarelecida pelos raios tímidos do sol que envolvem a aurora de mais um dia, um corpo desperta entre o emaranhado de tecidos quentes. Alonga-se demoradamente enquanto sente a pele vincar pelo ar ligeiramente frio, senta-se na cama e observa as paredes, o habitual ambiente, a disposição dos objetos, as roupas anteriormente largadas sobre os móveis, os sapatos deixados para trás. É uma desordem organizada. As formas arredondadas deixam-se delinear pelo tecido fino que veste a pele macia e branca, enquanto os cabelos caem naturalmente contrastando o branco e o preto. Sente o abraço apertado que lhe toma conta do corpo inerte, e as mãos deslizantes através dos tecidos que a protegem, o abraço parece mais protetor e quente, e suave, e agradável. Enquanto seu estado, desprovido da manifestação afetiva do desejo, conserva-se imóvel; o abraço arrebata-lhe os sentidos e faz brotar um conjunto de pontos interiores que se ligam, como conexões elétricas desenvolvidas repentinamente. Deixa-se maravilhar com os efeitos causados pelas propriedades elétricas do próprio corpo e da união dos corpos. E a manhã, tão fria e acanhada, torna-se escaldante enquanto a pele destila, através dos poros, o fluido aquoso do trabalho árduo do deleite sexual. Cada amanhecer fá-la despertar para o dom de ser feliz.

Na rua, todos caminham apressadamente.O dia envolve a vida de todos com tantos afazeres, as preocupações são introduzidas uma a uma e o agitar da águas atinge a população como um tsunami estarrecedor de cifras e convenções.

A mulher caminha...

É cedo. Sente o corpo dançar a melodia da existência, a rua estreita ou a grande avenida são passagens que se fundem em algum ponto, as construções refletem o bom gosto de cada um e as demolições enganam a simplicidade do transeunte, houve e haverá, não para sempre. O concreto elaborado é um espelho que reflete a inutilidade do construtor, o autor não verá a aniquilação da própria obra. A natureza toma decisões baseadas na intransigência humana.

A mulher caminha...

É noite. Cada nota musical leva sua mente a algum ponto do universo, e as tarefas se repetem quase inconscientes, como um compressor prestes a explodir, anda, anda, anda. Volta-se contra si mesma e apoia os princípios que nem são seus, não sabe quem os inventou, nem imagina como tudo seria se não existissem.

...

A mulher não caminha mais... queria-o tanto! Pela primeira vez sente aquela perturbação resultante de um perigo real, um medo que se divide em tantos outros, e observa as mãos trêmulas e o corpo que suporta cada dia como um fardo pesado para carregar. O mesmo corpo outrora trêmulo pelas mãos deslizantes de um amor que já não existe é a morada aprisionante da sua alma. Poucos momentos restam para serem lembrados, porque enquanto caminhava freneticamente pelo mundo não construiu a história que desejava lembrar.

“É preciso amor para poder pulsar!”