quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O sol, quando surge, parece trazer a vida, a essência que não se sabe ao certo o que é, mas causa aquela sensação boa, até promove a vontade de sair da cama quente, seja luxuosa ou um colossal colchonete, lá o corpo se estende e deixa-se, por alguns instantes, desfrutar da benevolência do sono reparador. É claro, a luxuosidade não me parece fornecer tantos subsídios à criação da personagem redonda, que é complexa, bem acabada e evolui na narrativa.


Sabe-se que a falta de algo provoca a teimosia da vida, busca-se suprir, de alguma forma, esta deficiência. Há força infinita, quase além do suportável. A dúvida toma-me por inteiro e esta personagem que me ronda, não consigo definir se a complexidade se acentua em conflitos insolúveis no caractere perfeito ou se procurarei ultrapassar a barreira humana no mundo psicológico que transcende o dia a dia. Sei, já, não quero a linearidade. O impacto da vida que se apresenta em um momento único.

Na cama, novamente, digo, sem mais temer ou duvidar, o corpo estendido recebe os primeiros raios do sol que irrompem a barreira da janela entreaberta e alcançam pequena porcentagem do corpo magro e cálido que ali se deleita sobre os lençóis amarrotados e luta, esforça-se no combate à sonolência que paira, ainda, naquele parco ambiente.

Direi quem vive neste corpo, sim. Em breve. Ainda decido a complexidade vinculada ao elemento que se sujeita ao acontecimento, ou é sujeito dele. A culpa nem sempre é do culpado, aquele que produz a ação pode até ser inocente. O fato existe e as provas irrefutáveis incriminam o praticante, porém, a mente incontrolável sofre bombardeios insanos, indesejados, perniciosos. Maculam aos poucos o olhar equilibrado.

A moça, então, quando consegue levantar-se, veste-se com uma rapidez que até então lhe era desconhecida. Consulta o relógio e apressa-se para o primeiro compromisso do dia. Surge-me que a pobreza não pode ter compromissos, nem necessita de agenda, para quê? O cotidiano é tão igual, idêntico, inviolável. Mas a bolsa de Rosa, envelhecida pelo uso diário, tinha uma agenda sim, e nela, todos os dias, escrevia algo. Recortara de uma revista três pedaços verticais de alguma imagem bonita aos seus olhos, dividia, assim, a agenda em três partes iguais:

A primeira parte, que começava com uma bela imagem do jardim florido de uma casa desconhecida, tinha poucas linhas por dia. Uma relato simples, parecia;

A segunda parte, não ultrapassava mais que três linhas diárias, e era o preâmbulo da derradeira. Uma bela face, maquiada, lhe iniciava a narrativa;

A terceira, contudo, ocupava mais de uma página. As letras voavam sobre linhas retas como se a ansiedade de cada palavra produzisse a urgência em se escrever. Um corpo nu, era a imagem iniciativa.

A agenda parecia mais um diário de ofícios. E era. É certo que a pobre Rosa não enriqueceria, mas o trabalho em três turnos consumia-lhe por inteiro. Seu prazer era registrar tudo o que vivia, isso a fazia parecer importante. Era como deixar algo de si para alguém, algum dia, conhecer. Doméstica matinal, faxineira vespertina e cuidadora de idosos noturna.

O que lhe causava mais prazer era ajudar aqueles que já não tinham forças, tampouco apoio familiar. Noites inteiras ouvia queixas de abandono, solidão e dor. A vida não deveria terminar assim, tão triste, pensava. E fazia tudo o que estava ao seu alcance para lhes proporcionar algum conforto.

Seguia-se um dia após o outro. A terceira parte da agenda passou a ter menos e menos palavras. As palavras têm significados, significados podem dizer muito sobre um fato. Uma palavra é o bastante para produzir a compreensão. Até mesmo do autor experiente as palavras fogem, às vezes. Deslizam e consomem-se na morfologia, e Rosa as procurava incessantemente, angustiada. Passou, então, à simbologia. Cada noite ali trabalhada escrevia a data e um ponto de interrogação.



Após folhear mais de cem páginas datadas e devidamente interrogativas, a policial que atendia a ocorrência no asilo da periferia olhou fixamente para o corpo enrugado e transparente, corroído pela doença terminal e observou, perplexa, a serenidade da face e da mucosa descorada. Um sorriso advinha do cadáver que esperava, paciente, a decomposição.

Passou por Rosa, que tinha os olhos quase a saltar de pavor e disse, sussurrando:

- O sofrimento não é para o humano,e jogou a agenda nas labaredas da lareira que ainda queimava os últimos troncos noturnos.