terça-feira, 13 de julho de 2010

Palavras...

Relógio, ensurdecedor e porcelana


Desviou o olhar ingrato e deixou-se absorver em pensamentos que em nada poderiam elucidar a interrogação que lhe cabia tão profundamente na mente, que a terra um dia iria devorar. Os neurônios lapidados em toda a sua vida, polidamente consumir-se-iam e o esterco mais uma vez se formaria dando vida à morte. Um momento único, vivia!

Perdia-se na lembrança de um vestido xadrez e os cabelos desarrumados e esvoaçantes emaranhavam-se entre iguais. Os pés encardidos pela terra preta, tão negra que mais parecia um cemitério que se instalara ali e os corpos decompostos produziram o ambiente perfeito para proliferação de um espaço ideal ao nascimento de vida. A vida! Mais do que viver, desejava! Enquanto seu vestido surrado pelo tempo e pela falta de dinheiro cobria o corpo ainda pueril e os pés saltitantes ziguezagueavam entre as árvores, distraía-se ao olhar o movimento da uma lagarta procurando um lugar seguro para repousar e deixar que o processo da transformação ocorresse naturalmente. Agachada não se importava com o protocolo que a mãe, mesmo humilde, repetia-lhe tantas vezes: — És menina, não te esqueças! Tu és diferente, não podes ficar de qualquer jeito. Conselhos que seu impulso de menina ultrapassava.

Em suas veias mais do que sangue havia. O conhecimento lhe caía em fios dourados e finos que perfuravam sua tão meiga extremidade arredondada, o centro do intelecto. O verbo era o aprendizado da infância que se seguia e o sol aquecia suas tardes entre brincadeiras e os deveres escolares. Era uma menina. Era uma mulher.

...

O mundo se lhe avizinhava. Entre a menina cujo vestido denunciava a falta de recursos e a mulher forte, decidida e poderosa ficara apenas uma lacuna. Talvez eu possa lhes dizer, mas não digo. Não agora. Que não desejo quebrar o encanto da menina que se lhes mostrou tão meiga e ingênua. Aquela que corria pela terra preta e não se importava com as regras de conduta. A infância tem esta vantagem. É o que pode ser. Vive intensamente a simplicidade da existência. Era porcelana, translúcida, que deixava a transparência interior aflorar, mas não se podia ver através dela o que havia atrás de si mesma.

O que está precedente em cada um pode ser uma incógnita eterna. Procura em toda parte e não pode encontrar. Busca no passado a melhor explicação do que o presente é, o futuro: um planejamento incerto. O relógio movimenta-se impecável, é dono de si mesmo. Não retrocede. Não se adianta. O instante é tão rápido que a biologia humana só se dá conta que o movimento do instrumento que mede e indica o tempo já circulou muito. A menina fica para trás.

A mulher, agora não lhe fujo a explicação, surgiu como um ruído ensurdecedor. Espalhou juventude, jogou-se na profissão. Foi mulher, amante. Olhou o mundo com olhos de ganância, abraçou causas. Escoou-se no funil humano que leva as pessoas ao egocentrismo. Construiu a existência com passado e futuro. O presente, digo-lhe sem mais nada esconder, é a lacuna que ficou.