quinta-feira, 17 de junho de 2010

Melodia

Eu sinto dentro de mim a música que clama por um sentimento de êxtase, aquele que invade a alma. De dentro para fora é que vem este sentimento. Cada órgão se encontra em harmonia e quer simplesmente compor uma sinfonia inteira, em notas musicais que se unem em completa sintonia e a sucessão de sons agradáveis não sai da minha boca e nem mesmo meus ouvidos ouvem. Meu corpo ouve, sente o som afável da calma que me invade. Eu mesmo posso compor a partitura e em qualquer clave eu tenho certeza de que resultará no mais agradável som da vida.



Eu sinto o estado da alma que se desprende das coisas materiais e contemplo o meu próprio interior e cada vez mais quero me envolver comigo mesma e prestar atenção aos detalhes de um sentimento que me domina e noto que há sinceridade nele. Eu não posso enganar-me. Não posso errar a nota e deixar a música sem sonoridade. Eu não posso falar. Somente ouço a voz interior que clama por um momento único.


Nada se pode fazer, dizer. Nada explica tudo. Nada é preciso. Apenas deixar-se preencher pela melodia que conduz ao instante de leveza pura. É puro o sentimento, já o disse. Um abraço que me dou.


O corpo flutua em águas cristalinas e relaxantes. Posso esticar os membros além do meu limite, e com a ponta dos dedos sentir o infinito, apalpar um pedaço do universo que mora dentro de mim. Aqui estou. Flutuo.


Eu não posso mergulhar. Não me é permitido. Flutuar faz-me sentir a profundeza da água, o calor da superfície e vislumbrar o céu e o infinito. O que corre nas veias senão o enlevo da minha alma?


Eu não quero nada além deste sentimento. Eu somente quero senti-lo. E em toda música há um fragmento que me aquece em demasia, e são notas tão perfeitas que fazem meus ouvidos desejarem mais e mais. Este mesmo trecho que causa tanto arrebatamento é tão límpido como a inocência da virgem e forte como a volúpia do amor. Bemóis e sustenidos perfeitos.


Leva-me o corpo ao êxtase interior, aonde não é preciso além de uma simples melodia.


A carne não suporta. O corpo cai. O canto agradável e uníssono de vozes perfeitas jamais poderá ser explicado em palavras e qualquer tentativa de reproduzir a suavidade dos sons é vã. Ninguém pode reproduzir aquilo que somente se pode sentir.