terça-feira, 22 de junho de 2010

Ao amor

Hoje eu entendo melhor esta nossa relação desigual. Que não seja isto um desejo de expressar com utopia a arte de viver. Que viver é uma arte. Um cristal. Um vidro que pode ser lapidado por mão hábil e apresentar aquela transparência translúcida, de forma que a beleza está naquela fragilidade que o vidro contém. Uma fragilidade que fortalece, que engrandece a peça. Ninguém dá valor ao vidro tosco. O refinamento só aparece quando alguém lapida a obra da vida. É assim. A vida começa assim. Como um bebê que toscamente surge e aprende, é sensível ao lapidador. Retém partículas de sabedoria no corpúsculo inocente. Continua, porém, inacabado. Esta é uma lapidação sem fim. Os seres são inacabados, andam de um lado para o outro. Procuram. Procuram. O Universo parece pequeno.


Um dia, dois seres, por algum motivo encontram-se, a lapidação de um parece encaixar-se no outro. Os cristais cantam aquele som agudo que acontece quando se molha o dedo na língua e em movimentos circulares e suaves desliza-o sobre a borda do copo verdadeiro. O legítimo soa.

O encontro dos seres pára a rotação da Terra, os segundos tornam-se grandiosos, intensos como o fogo que arde em labaredas e o seu calor derrete o vidro e o transforma naquela peça extraordinária que sou eu - que é você. Porque a maior arte deste procedimento consiste em tornar-nos um, porém, sem deixar de manter aquela essencial lapidação original. Isto sim, não se pode subtrair.

Ah, como dói-me rever os dias em que tentamos arrancar aquela tão necessária marca em nossas peças, como se tivéssemos extraído uma lasca necessária. A bolha de ar que ficou durante o processo e não pode ser tirada. Se tentar, quebra. E lá se vai toda a beleza global.

Eu não quero arrancar-te nada, meu bem. Nem quero que me tires o que me enfeita, além de tudo, a alma e o corpo. Eu quero que estejas em mim e eu estarei em ti, sempre. Como um hálito fresco são as palavras proferidas.

E a lapidação continua. A vida continua. A nossa vida continua. Ainda somos cristais diferentes que se tocam num brilho inigualável. É isto que nos torna belos, transparentes. Que felicidade isto me causa. A descoberta mútua da diferença que há em nós e deixa, ainda mais interessante, toda esta obra de arte, que é a vida. Não que o procedimento da lapidação não doa um pouco. Dói sim, tanto que ficam algumas marcas, mesmo imperceptíveis ao olho não tão apurado. O mais belo e encantador é, contudo, ver-nos soar a melodia da perfeição cristalina ao toque suave de um dedo molhado com a saliva aquosa que procura, a cada dia, um puro vidro lapidado que produza o som agudo e perfeito da existência.

Sou eu — é você!