quinta-feira, 27 de maio de 2010

Lembrar de Esquecer

Esqueceu-se de si mesmo. Os autores que eu tenho aprendido a apreciar gostam tanto de esquecerem-se de si mesmos que acabei por pensar o que aconteceria com os textos se em vez de se esquecerem, tivessem lembrado de si mesmos.


Como podem escrever sobre nada, sobre não estarem aonde estão, não amar, não ter, não ser. Como podem dar vida ao inerte e prender a atenção em linhas e linhas sem propósito que se unem em perfeição semântica e transformam as letras em melodia harmoniosa? Quem sabe.

A tristeza é tão mais interessante e rende tanto. Rende bons textos, flui como uma caudalosa cachoeira e transforma a morfologia em poema. O sangue vivo que possui um cheiro particular escorre entre os dedos do escritor e desliza através dos sulcos da pele até as unhas e mesmo embaixo da queratina, aonde já se coagula, goteja nas teclas da história. A tela é bicolor: preto e branco. Os cabelos tão curtos não requerem cuidados, a pele branca contrasta com os grandes olhos negros, tão negros que são capazes de absorver todos os raios luminosos. O caos desperta mais interesse, a desgraça é ultrajante para quem a vive, porém delicia-se o leitor neste contexto.

Eu queria que os melhores ainda vivessem para lembrar-nos de esquecer o lado cruel que há dentro de nós. Que maltrata, é impiedoso e valente, acha-se superior e transborda sangue ainda quente por entre os dedos de um inocente que não sabe nem mesmo digitar uma palavra. Olha as vísceras humanas como se fossem mais um pedaço de qualquer coisa que se foi e há tantas outras por aí para substitui-las. Desconhece o coração. Estupra a alma e mata o corpo.

Oxalá eu pudesse lembrar através das letras o colorido que há na vida, ver no corpo um templo de felicidade, um começo do céu que habita na terra e flui através das pessoas em ações que resultam em satisfação plena. E se eu pudesse colorir a página da existência de cada um e fazer textos felizes. Ah! Se eu pudesse ser o sol e iluminar qualquer fresta. Um só alfabeto seria tão pouco para expressar o êxtase das minhas palavras. Mas eu não tenho estes poderes sobrenaturais, tampouco conheço a mim mesma o suficiente e até o meu sol, às vezes, se ofusca. Eu só posso viver um sol por dia! Posso escolher, todavia, deixá-lo atravessar as frestas ou fechá-las, definitivamente.